Vale do Pati: Por Que é o Santuário do Trekking no Brasil?
- Fernando Borborema
- 22 de jul. de 2025
- 4 min de leitura
Atualizado: 22 de out. de 2025
O Pati não é apenas uma trilha, é uma travessia que transformou o ecoturismo de aventura no Brasil. Considerado por muitos o trekking mais bonito do país, ele se estabeleceu como um verdadeiro santuário, não só por sua beleza natural, mas pela profunda conexão que oferece entre o visitante e a história viva da Chapada Diamantina.

Mas o que faz deste vale isolado, acessível apenas a pé ou a cavalo, um destino tão reverenciado? A resposta está na confluência de um passado rico, uma natureza intocada e um modelo de turismo de base comunitária único.
O Vale que o Tempo Tentou Apagar: Uma Breve História Demográfica
Para entender o Pati de hoje, é preciso voltar no tempo. A região não nasceu com vocação turística. No auge de sua concentração demográfica, nas décadas de 1940 e 1950, o Vale do Pati abrigava cerca de 2.000 pessoas e aproximadamente 300 a 400 famílias¹ (Marback, 2018). Sua principal atividade econômica era a cafeicultura, um ciclo que trouxe prosperidade e isolamento.
Com a crise do café e a falta de escoamento para a produção, o Pati sofreu um êxodo rural dramático. A população se dispersou em busca de melhores condições nas cidades vizinhas (como Andaraí e Mucugê) e nas capitais. Apenas uma pequena fração de famílias — hoje estimadas em torno de 13 a 15 — decidiu permanecer, vivendo da agricultura de subsistência.
Quando você visita hoje a lendária Igrejinha, o local conhecido como "Prefeitura" ou caminha pelas estruturas de pedra, está pisando nos vestígios desse passado vibrante.
O Renascimento pela Aventura e Imersão
O Vale do Pati, embora hoje seja um ícone do ecoturismo, se insere em um contexto mais amplo de esforços regionais para o desenvolvimento turístico. A primeira iniciativa institucional ocorreu bem antes da chegada dos mochileiros.
Já no início da década de 1970, o Governo do Estado da Bahia buscava descentralizar o turismo de Salvador, elaborando o 1º Plano de Turismo do Recôncavo (PRT). Esse foco se aprofundou em 1974, quando o estado direcionou formalmente seus esforços para a interiorização do turismo na Chapada Diamantina, com equipes técnicas da Bahiatursa realizando diagnósticos nas cidades de Lençóis, Andaraí e Mucugê (Brito, 2005).
Em 1976, com a criação da EMTUR (Empreendimentos Turísticos da Bahia S.A.), o objetivo se consolidou, visando a construção de meios de hospedagem para alavancar a atividade (Brito, 2005). Foi sobre essa base de interesse institucional que, mais tarde, o Vale do Pati emergiu como um destino de beleza indomável, em um movimento que, inicialmente, divergiu do modelo hoteleiro e se tornou o turismo de base comunitária de hoje.
A grande virada ocorreu a partir da década de 1980, quase simultaneamente à criação do Parque Nacional da Chapada Diamantina (PNCD), em 1985 (Decreto Nº 91.655), quando mochileiros começaram a "redescobrir" o vale, buscando suas trilhas.
Contudo, foi a partir dos anos 90 que agências de turismo visionárias começaram a propor o que hoje é o modelo de turismo de base comunitária do Pati. Em vez de acampar em barracas, o visitante passou a ser acolhido nas casas das famílias nativas remanescentes, os chamados "patizeiros" (Silva, 2022; Marback, 2018).
Essa transformação é a espinha dorsal do Pati como Santuário do Trekking:
Hospitalidade Genuína: Você dorme em quartos simples, mas aconchegantes, e é alimentado por uma deliciosa e farta culinária regional, preparada em fogão à lenha.
Sustento Comunitário: O ecoturismo se tornou a principal fonte de renda das famílias, garantindo a permanência delas no vale e o interesse pela conservação ambiental e cultural.
Conexão Autêntica: A ausência total de sinal de celular e internet — uma característica logística do vale — força o detox digital, promovendo uma troca rica de histórias e experiências entre viajantes e moradores.
Um Desafio com Recompensa Mística
O Pati não é apenas cultural; ele é um desafio físico que recompensa a alma. A travessia, que varia de 3 a 5 dias e pode somar mais de 60 km, inclui a subida íngreme ao Morro do Castelo, a contemplação do imponente Cachoeirão e as longas caminhadas nos Gerais do Rio Preto e Vieira.
A recompensa, no entanto, é a certeza de estar em um lugar protegido do tempo, onde a magnitude da natureza (cânions, rios cristalinos e a Mata Atlântica contrastando com o campo rupestre) se une à simplicidade de um modo de vida que resiste.
O Vale do Pati é o santuário do trekking porque oferece algo que o turismo moderno raramente consegue: uma imersão completa. É uma viagem que exige preparo físico, mas entrega um retorno emocional e cultural incalculável. Se você busca uma aventura que transforma, reconecta e deixa uma marca duradoura, este é o seu destino.
Notas de rodapé
Segundo pesquisa de Heitor Ferrari Marback, publicada em tese de doutorado pela UFBA em 2018.
REFERÊNCIAS
MARBACK, Heitor Ferrari. Uma viagem exploratória pelo Vale do Pati: estudo sobre o acolhimento nos meios de hospedagem. Tese (Doutorado em Difusão do Conhecimento) – Universidade Federal da Bahia (UFBA), Salvador, 2018.
GUANAES, Iara Gomes. Entre as serras, o Vale do Pati: dinâmica e identidade territorial. Dissertação (Mestrado em Geografia) – Universidade Federal da Bahia (UFBA), Salvador, 2006.
BRITO, Maria de Fátima Almeida de. A institucionalização do turismo em área de garimpo: um estudo em Lençóis (Bahia). Tese (Doutorado em Ciências Sociais) – Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), São Paulo, 2005.




Comentários